Me Acharam?

QUERO QUE VOCÊ VEJA QUEM SOU: ESSA SOU EU: . TÁ ME VENDO?! NÃO?! VOU TE MOSTRAR DE NOVO: . AGORA VIU NÉ?! AINDA NÃO?! CHEGA MAIS PERTO E OBSERVA: . AGORA VIU, NÉ?! QUE BOM QUE ME ENXERGOU! EU SOU MESMO ESSE PONTINHO, NO MEIO DO UNIVERSO.

Estudo Errado

Estudo Errado
Gabriel, o Pensador1
(Atenção pra chamada! Aderbal: Presente! Aninha: Eu! Breno: Aqui! Carol: Presente! Douglas: Alô!
Fernandinha: To aqui! Geraldo: aahh! Ademarzinho: faltou! Juquinha...). Eu tô aqui. Pra quê? Será que é pra
aprender? Ou será que é pra aceitar, me acomodar e obedecer? Tô tentando passar de ano pro meu pai não
me bater. Sem recreio de saco cheio porque eu não fiz o dever. A professora já tá de marcação porque
sempre me pega. Disfarçando espiando e colando toda a prova dos colegas. E ela esfrega na minha cara um
zero bem redondo. E quando chega o boletim lá em casa eu me escondo. Eu quero jogar botão, vídeo game,
bola de gude. Mas meus pais só querem que eu “vá pra aula!” “estude!” Então dessa vez eu vou estudar até
decorar cumpádi. Pra me dar bem e minha mãe deixar eu ficar acordado até mais tarde. Ou quem sabe
aumentar minha mesada. Pra eu comprar mais revistinha (do Cascão?) não. De mulher pelada. A diversão é
limitada e meu pai não tem tempo pra nada. E a entrada no cinema é censurada (vai pra casa pirralhada!). A
rua é perigosa então eu vejo televisão (Tá lá mais um corpo estendido no chão). Na hora do jornal eu desligo
porque eu nem sei o que é inflação – Ué, não te ensinaram? – Não. A maioria das matérias que eles dão eu
acho inútil. Em vão, pouco interessantes, eu fico pu... Tô cansado de estudar, de madrugar, que sacrilégio (Vai
pro colégio!!). Então eu fui relendo tudo até a prova começar. Voltei, louco pra contar: Manhê! Tirei um dez
na prova. Me dei bem, tirei um cem e eu quero ver quem me reprova. Decorei toda a lição. Não
errei nenhuma questão. Não aprendi nada de bom. Mas tirei dez (boa filhão!). Quase tudo que
aprendi, amanhã eu já esqueci. Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi. Quase tudo que aprendi,
amanhã eu já esqueci. Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi. Decoreba: esse é o método de ensino.
Eles me tratam como ameba e assim eu num raciocínio. Não aprendo as causas e conseqüências só decoro os
fatos. Desse jeito até história fica chato. Mas os ve lhos me disseram que o “porque” é o segredo. Então
quando eu num entendo nada, eu levanto o dedo. Porque eu quero usar a mente pra ficar inteligente. Eu sei
que ainda num sou gente grande, mas eu já sou gente. E sei que o estudo é uma coisa boa. O problema é
que sem motivação a gente enjoa. O sistema bota um monte de abobrinha no programa. Mas pra aprender a
ser um ogonorante (...) Ah, um ignorante, por mim eu nem saía da minha cama (Ah, deixa eu dormir). Eu
gosto dos professores e eu preciso de um mestre. Mas eu prefiro que eles me ensinem alguma coisa que
preste. O que é corrupção? Pra que serve um deputado? Não me diga que o Brasil foi descoberto por acaso!
Ou que a minhoca é hermafrodita. Ou sobre a tênia solitária. Não me faça decorar as capitanias hereditárias!!
(Alô!? Alô! Que vai cair na prova de amanhã? O quadrado da hipotenusa, cromossomos, tabela periódica, os
afluentes do rio Amazonas...) AAAAAAhh! Vamos fugir desta jaula! “Hoje eu tô feliz” (matou o presidente?)
não. A aula. Matei a aula porque não tava dando eu não agüentava mais. E fui escutar o Pensador escondido
dos meus pais. Mas se eles fossem da minha idade eles entenderiam (Esse num é o valor que um professor,
aluno, merecia!) Íííh... Sujo! (Hein?) O inspetor! (Acabou a farra, já pra sala do coordenador!). Achei que ia
ser suspenso mas era só pra conversar. E me disseram que a escola era o meu segundo lar. E é verdade, eu
aprendo muita coisa realmente. Faço amigos, conheço gente, mas não quero estudar pra sempre! Então eu
vou passar de ano. Não tenho outra saída. Mas o ideal é que a escola me prepare pra vida. Discutindo e
ensinando os problemas atuais. E não me dando as mesmas aulas que eles deram pros meus pais. Com
matérias das quais eles não lembram mais nada. E quando eu tiro dez é sempre a mesma palhaçada: Manhê!
Tirei um dez na prova. Me dei bem, tirei um cem e eu quero ver quem me reprova. Decorei toda a
lição. Não errei nenhuma questão. Não aprendi nada de bom. Mas tirei dez (boa filhão!). Encarem
as crianças com mais seriedade. Pois na escola é onde formamos nossa personalidade. Vocês tratam a
educação como um negócio onde a ganância, a exploração e a indiferença são os sócios. Quem devia lucrar só
é prejudicado. Assim cês vão criar uma geração de revoltados. Tá tudo errado e eu já tô de saco cheio. Agora
me dá minha bola e deixa eu ir embora pro recreio... (Juquinha, ce tá falando demais. Assim eu vou ter que te
deixar sem recreio! Mas é só verdade, fêssora! Eu sei, mas colabora, senão eu perco meu emprego!).